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Pesquisa · Economia do esporte

Da MLB ao Brasil: uma análise do beisebol contemporâneo

Por Caio Nishiye e Júlia Seith · 19 de maio de 2025 · 12 min de leitura

Apesar de ainda ser pouco praticado no Brasil, o beisebol é um dos esportes mais populares e lucrativos do mundo. Neste texto, a FEA Sports Business explora como ele se consolidou nos Estados Unidos com a poderosa MLB, sua expansão para países asiáticos e latino-americanos, e como, aos poucos, vem ganhando espaço por aqui — que, apesar de nichado, está ganhando destaque com feitos inéditos.

O Beisebol, esporte tradicionalmente associado aos Estados Unidos, é um dos esportes mais populares e economicamente potentes do mundo, com a Major League Baseball sendo sua representante global. Desde seu início, a MLB tem se consolidado como gigantesco empreendimento esportivo, atraindo milhões de espectadores e gerando bilhões de dólares anualmente. A MLB — liga de beisebol americana e canadense — surge no ano de 1903, quando a liga nacional e a liga americana unem-se para atuar em conjunto.

Após anos de desenvolvimento e expansão, a MLB, atualmente, é composta por 30 times (sendo 29 americanos e 1 canadense) e dividida em duas conferências. Cada conferência é subdividida em três divisões: Leste, Central e Oeste. A temporada regular da MLB começa, normalmente, no final de março ou início de abril e se encerra no final de outubro, com cada equipe disputando 162 partidas. Número extremamente alto se comparado a outras ligas americanas, como por exemplo a NBA, na qual cada equipe disputa 82 jogos.

MLB por um viés econômico

De acordo com a CBS Sports, a MLB obteve um aumento de 33% de receita ao longo dos últimos dez anos, batendo o recorde de receitas da liga no ano fiscal de 2024, registrando um total de US$12,1 bilhões no ano. Essa expressiva arrecadação advém principalmente dos direitos de transmissão, dos patrocínios e da publicidade.

Direitos de Transmissão

A World Series (final da MLB) de 2024, protagonizada por Los Angeles Dodgers e New York Yankees, atingiu, de acordo com dados da FOX, uma média de 15,1 milhões de espectadores, um número que não era registrado desde a final da MLB em 2017. Este fato destaca a forte atratividade televisiva da liga de beisebol americana e evidencia, ainda que de forma sutil, a intensa concorrência pelos direitos de transmissão da Major League Baseball.

Atualmente, a MLB possui contratos altamente lucrativos com emissoras de televisão. A FOX, por exemplo, contém um acordo de US$714 milhões por ano válido até 2028, já a Turner Sports possui um contrato de US$470 milhões por ano válido também até 2028.

Patrocínios e Publicidade

De acordo com o ranking da SponsorUnited, a MLB arrecadou cerca de US$1,84 bilhão com publicidades em 2024. Esse valor está associado não só a ampla e engajada audiência da MLB, mas também a exposição significativa das marcas nos jogos.

O relatório da PlayFly Sports, relacionado ao valor da MLB ao patrocinador e ao publicitário, indica que a maioria dos fãs ávidos dos esportes iniciam sua paixão enquanto jovens — 17 anos ou menos. Eles são 2,5 vezes mais propensos a assistir a todos os jogos da sua equipe favorita e 3 vezes mais propensos a se conectar emocionalmente com os patrocinadores do seu time e fazer uma compra de uma marca alinhada com seu time favorito. Dado isso, o relatório expõe que cerca de 70% dos fãs da MLB tornam-se seguidores da liga enquanto jovens, porcentagem maior que a da NFL que conta com 66% e da NBA que conta com 60%. Logo, os fãs da MLB são mais rentáveis às marcas do que as outras ligas americanas.

Outro aspecto que marca o valor arrecadado pela liga é a exposição das marcas nos jogos. Com 2430 partidas em uma temporada, a Major League Baseball deu às marcas maior exposição que qualquer liga, chamando assim, a atenção delas. A Nike, maior fornecedora de produtos esportivos do mundo, possui um contrato de US$1 bilhão válido até 2029 com a MLB. Além dela, outras grandes marcas também são patrocinadoras da Liga, como por exemplo, a Adobe, empresa desenvolvedora de softwares, a Budweiser, marca de cerveja, a Chevrolet, fabricante de veículos, e a MasterCard, empresa de serviços financeiros.

O Beisebol no Mundo

Embora o beisebol pareça um esporte exclusivamente praticado nos Estados Unidos devido à sua tradição, países como Japão, Coreia do Sul, Venezuela, República Dominicana, Cuba e Porto Rico também são grandes praticantes do esporte. Além de exportar inúmeros talentos para a Major League Baseball, essas nações também possuem ligas nacionais cada vez mais estruturadas e competitivas.

Atualmente, a Liga americana está repleta de jogadores estrangeiros. Na temporada de 2025, 265 atletas de 18 países diferentes vão disputar a MLB. Desses jogadores, 160 são centro-americanos, com destaque para os dominicanos que possuem 100 representantes na Liga. Além disso, vale destacar a presença de países como a Venezuela e Japão, que contam, respectivamente, com 63 e 12 jogadores na MLB. Outro ponto notável é que os dois maiores contratos da MLB pertencem a jogadores estrangeiros: o Dominicano Juan Soto, do New York Mets, e o Japonês Shohei Ohtani, do Los Angeles Dodgers. Ambos são estrelas da Liga americana e simbolizam a globalização da MLB e a valorização de talentos internacionais.

Além da clara expansão internacional da Major League Baseball, é válido ressaltar a evolução das ligas nacionais. A KBO League — Liga Coreana de Beisebol, por exemplo, fundada em 1982, vem se desenvolvendo cada vez mais. No início, a liga contava com apenas 6 equipes, atualmente há a presença de 10 times; esse aumento representa principalmente, o crescimento da popularidade do esporte no país. Além dessa expansão nacional, outro aspecto que demonstra a notoriedade e evolução do Beisebol no país asiático é a presença de grandes marcas coreanos nos nomes dos times da liga: Kia Tigers, Samsung Lions e LG Twins são exemplos dessa influência.

Shohei Ohtani

Astro do Beisebol Mundial, Shohei Ohtani nasceu na província de Iwate no Japão e foi revelado pelo Hokkaido Nippon-Ham Fighters, no qual disputou 5 temporadas (entre 2013 e 2017) na Nippon Professional Baseball — liga profissional de Beisebol Japonesa —, sendo campeão na temporada de 2016 e ganhando o MVP (Most Valuable Player) da liga japonesa naquele ano. Após se destacar no beisebol japonês, Ohtani foi contratado em 2018 pelo Los Angeles Angels e, embora tenha tido um início promissor — foi eleito o novato do ano em sua temporada de estreia —, o jogador japonês sofreu uma série de lesões nos dois anos seguintes, que afetaram seu rendimento.

Em meio a um período de incertezas, Ohtani volta a se destacar no ano de 2021 e chama a atenção dos Los Angeles Dodgers, que oferecem um contrato de US$700 milhões (aproximadamente R$3,5 bilhões, ou quase três vezes o valor que o PSG pagou ao Barcelona para contratar o Neymar) para contar com o jogador.

Além de ter um dos maiores contratos da MLB e do mundo, Shohei Ohtani bateu diversos recordes da MLB. O japonês atingiu a marca de 50 home runs e 50 bases roubadas em uma mesma temporada, feito nunca atingido na liga que, vale destacar, existe desde 1903. Esse recorde foi enaltecido por diversos gênios do esporte como Lebron James, estrela do Los Angeles Lakers, que, através do X, se manifestou escrevendo: "Esse cara é surreal, meu Deus!".

Embora tenha conquistado apenas uma MLB, Ohtani já conta com três MVP's, sendo o 2º jogador da história, ao lado de algumas lendas do esporte, com mais prêmios dessa categoria conquistados. E ainda não só conquistou prêmios na MLB, mas também levou a Seleção Japonesa, conhecida como Samurai Japan, ao terceiro título da World Baseball Classics — campeonato mundial de Beisebol — em cima dos Estados Unidos por 3 a 2, se isolando como o país com mais campeonatos mundiais conquistados.

O Beisebol no Brasil

Apesar de ser um esporte bastante popular nos Estados Unidos e em outros países como Japão, Venezuela e Cuba, o beisebol é pouquíssimo praticado no Brasil. Jorge Otsuka, ex-presidente da Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol (CBBS), estima que há em torno de 30 mil praticantes da modalidade no Brasil, sendo que, em 2021, cerca de 6.000 deles eram federados. A título de comparação, de acordo com o censo IBGE 2015, 15 milhões de pessoas responderam que a sua principal modalidade esportiva é o futebol e seus derivados (futsal e futebol de areia, por exemplo).

A principal razão está no fato de que o país já possui uma forte tradição no futebol, que domina o cenário esportivo desde o início do século XX; assim, outras modalidades encontram diversas barreiras culturais para se desenvolver. Outro fator importante é que o beisebol exige equipamentos específicos e infraestrutura adequada, como campos com dimensões padronizadas, o que limita o acesso e a prática em larga escala. No Brasil, o esporte tem maior presença em comunidades com influência japonesa, especialmente no estado de São Paulo, onde há clubes e torneios regionais organizados, mas ainda assim permanece restrito a nichos específicos.

As origens do Beisebol

Para entender melhor como o beisebol chegou ao Brasil e por que se desenvolveu de forma tão localizada, é importante olhar para as origens do esporte e seu percurso até se tornar uma modalidade global. A história do beisebol ajuda a explicar como ele se consolidou em determinadas regiões do mundo e como essas influências chegaram ao território brasileiro.

Acredita-se que o esporte sofreu influência de um antigo jogo britânico com aspecto e regras semelhantes. O rounders era praticado de forma similar ao beisebol moderno, com algumas diferenças como a posição das bases e o sistema de contagem de pontos, e teria sido levado aos Estados Unidos em algum momento do século XVIII. Já em meados do século XIX, Alexander Cartwright desenvolveu as atuais regras do esporte e, por conta disso, foi considerado pelo Congresso estadunidense como o inventor do beisebol, ainda que existam controvérsias.

Em 1908, os primeiros imigrantes japoneses chegaram ao Brasil e se estabeleceram no interior de São Paulo, em cidades como Bastos, Marília e Presidente Prudente. Com eles, vieram também elementos culturais, incluindo o beisebol, que era muito popular no Japão desde o final do século XIX. A prática do esporte começou como uma atividade recreativa entre os membros das comunidades nipônicas, ajudando a manter os laços culturais com sua terra natal. Com o tempo, clubes e associações esportivas foram sendo criados para organizar partidas e campeonatos, mantendo o esporte vivo dentro dessas comunidades. No entanto, o beisebol não chegou a se expandir de forma significativa para além desses grupos, permanecendo até hoje com uma base de praticantes concentrada, em sua maioria, entre descendentes de japoneses.

Além da influência japonesa, há registros que indicam que o beisebol também foi introduzido no Brasil por funcionários de empresas multinacionais, especialmente norte-americanas, no início do século XX. Com a crescente presença de empresas dos Estados Unidos no país, principalmente no setor industrial e de extração, muitos trabalhadores expatriados se instalaram em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e em regiões do interior onde havia grandes operações empresariais.

A CBBS e a Seleção Brasileira

As federações exercem um papel fundamental na organização, promoção e manutenção do esporte. A principal entidade responsável pela modalidade no Brasil é a Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol (CBBS), criada em 1990, que coordena campeonatos nacionais, treina seleções brasileiras e dá suporte às federações estaduais. Estas são instituições essenciais para manter viva a prática do esporte, oferecendo suporte técnico, promovendo torneios regionais e investindo na formação de atletas desde as categorias de base.

Graças ao trabalho das federações, o Brasil conseguiu montar equipes competitivas para disputar torneios internacionais, como o World Baseball Classic. Além disso, elas têm buscado parcerias com escolas e clubes para ampliar o acesso ao esporte e atrair novos praticantes fora do tradicional eixo da comunidade nipo-brasileira. No entanto, o alcance dessas ações ainda é limitado devido à escassez de recursos, à falta de apoio governamental e ao baixo interesse da mídia esportiva nacional.

Campeonatos internacionais

A Seleção Brasileira de Beisebol não é considerada uma equipe tradicional na modalidade, por isso, todo e qualquer feito é bastante celebrado pela comunidade. Foi assim com a conquista da prata nos Jogos Pan-Americanos de 2023, em Santiago.

O Brasil, que não participava de uma edição dos Jogos Pan-americanos desde 2007, ganhou os três jogos da fase classificatória contra Cuba, Venezuela e a própria Colômbia e, ao enfrentar o Panamá na sequência, garantiu a vaga na final. Apesar da derrota para os colombianos na disputa pelo ouro, nada tira o mérito da equipe de ter garantido a primeira medalha do país na modalidade, um feito histórico que marca a maior conquista da história do beisebol brasileiro e se torna ainda mais impressionante quando muitos desses atletas não têm dedicação exclusiva ao esporte e precisam conciliar os treinos com sua rotina diária.

É importante destacar que a Seleção Brasileira é resultado de décadas de trabalho de uma modalidade que tem raiz na cultura japonesa e, muitas das vezes, é por conta disso que não é tão difundida no nosso país. O jornalista Ubiratan Leal comenta que "nesse quase século de existência, dezenas de clubes formaram jogadores, que se aposentaram e se transformaram nos técnicos da geração seguinte, que também envelheceu e ajudou a preparar a seguinte, e assim por diante". Assim, embora seja um esporte bastante nichado, o beisebol brasileiro vem superando barreiras culturais e estruturais para evoluir gradualmente e trazer realizações para o Brasil, como a medalha do Pan ou como a recente classificação — segunda de toda a sua história — para a World Baseball Classic 2026, a copa do mundo de beisebol.

O Beisebol nas Olimpíadas

A história do beisebol nas olimpíadas é um tanto instável. Desde sua primeira participação nos Jogos de Estocolmo, em 1912, teve algumas aparições como esporte de demonstração e foi incluído oficialmente no programa olímpico em Barcelona 1992. A modalidade permaneceu somente até Pequim 2008, no entanto, sendo depois retirada por decisão do Comitê Olímpico Internacional. Recentemente, por conta de sua imensa popularidade no Japão, voltou a integrar os Jogos de Tóquio em 2020, mas ficou novamente de fora de Paris 2024. Em termos de participação, o Brasil ainda não conseguiu se classificar para disputar o torneio olímpico de beisebol. Apesar de avanços em categorias de base e de uma crescente profissionalização, o nível da seleção brasileira ainda está aquém das grandes potências da modalidade, como Estados Unidos, Japão e Cuba. Ainda assim, a inclusão temporária do beisebol nas Olimpíadas serve como incentivo para o fortalecimento do esporte em países onde ele é menos difundido, como é o caso do Brasil.

O beisebol, apesar de suas raízes estarem profundamente ligadas à cultura norte-americana, se mostrou um esporte de alcance e impacto globais, tanto em termos culturais quanto econômicos. A força da Major League Baseball, com seus impressionantes números de audiência, receitas publicitárias e contratos milionários, mostra como o esporte evoluiu para além do entretenimento, tornando-se uma verdadeira potência econômica. Internacionalmente, a expansão do beisebol é evidente, com a crescente presença de talentos estrangeiros e o fortalecimento de ligas locais em países como Japão e República Dominicana. No Brasil, ainda que a popularidade do esporte permaneça restrita, resultados recentes, como a classificação para a WBC, demonstram o potencial de crescimento da modalidade. Projetos de desenvolvimento, como os impulsionados pela CBBS, são fundamentais para ganhar espaço em um cenário esportivo tão competitivo. No ritmo da globalização, o beisebol segue reafirmando seu lugar como um dos esportes mais relevantes e estratégicos do mundo.

Referências

PODER360. MLB bate recorde com receitas de US$ 12,1 bilhões em 2024. Poder Sports MKT, 28 jan. 2025. Link

SPONSORUNITED. MLB Marketing Partnerships 2024 Report. Stamford, CT, 24 out. 2024. Link

MAJOR LEAGUE BASEBALL. Official Sponsors of Major League Baseball. MLB.com. Link

BROWN, Maury. Groundbreaking report on MLB shows baseball's incredible value for advertisers. Forbes, 17 ago. 2023. Link

ESPN.COM.BR. Shohei Ohtani faz história na MLB e "enlouquece" LeBron James, Magic Johnson e mais gênios do esporte. 19 set. 2024. Link

NEVES, Rodrigo. A prática do Futsal e Futebol no Brasil: números oficiais de referência. FootHub, 23 jan. 2024. Link

CBBS — Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol. Site oficial. Link

LEAL, Ubiratan. Semana MLB | O Brasil tem, sim, seleção de beisebol. ESPN, 14 mar. 2025. Link

Esta pesquisa foi produzida pelo núcleo de Pesquisa da FEA Sports Business e publicada originalmente no Medium da FEA SB.