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Pesquisa · História e economia do esporte

A elitização do futebol: o ex-porte do povo?

Por Bernardo Vilas Boas, Caio Yue, Enrico Luchesi, João Rocha, Júlia Seith, Victor Rezende e Victor Lazarini · 10 de abril de 2026 · 35 min de leitura

Da várzea ao espetáculo: como o futebol brasileiro nasceu elitista, se popularizou e se tornou a maior paixão nacional — e como, nas últimas décadas, voltou a se distanciar do torcedor comum.

Um match para mudar um país

São Paulo

O conto clássico do esporte brasileiro está relacionado ao nascimento da modalidade na capital paulistana: o futebol chegou em São Paulo e no Brasil com Charles Miller. Filho de mãe brasileira e pai escocês, Miller nasceu no Brás e estudou na Inglaterra até 1894, retornando à sua terra natal com uma imensa bagagem adquirida nas ilhas britânicas, incluindo o popular esporte que se espalhava por tal região, o "foot-ball". Em 1895 ocorreu a primeira partida do esporte na cidade, na chamada Várzea do Carmo, terreno cedido por uma empresa de transporte do período, e disputada por altos funcionários da São Paulo Gas Company e da The São Paulo Railway Company, sob as instruções de Miller, marcando o pontapé inicial do que viria a ser a "paixão nacional". Já é notória a presença de termos "anglófonos" e personagens da elite, o que demonstra a natureza altamente "estrangeirista" do futebol pioneiro, e seu aspecto excludente, que iria perdurar em certa medida até a profissionalização do esporte.

Após os eventos na Várzea do Carmo foram fundados diversos clubes de futebol, ou, mais comumente nesse contexto, o "foot-ball" foi incorporado em clubes preexistentes, como no caso do São Paulo Athletic Club, clube de cricket fundado em 1888 e que adotou o futebol em 1896 por influência direta de Miller. Depois do SPAC, que fora a primeira associação paulistana a incorporar o futebol como modalidade plena, vieram a Associação Atlética Mackenzie College, o Sport Club Internacional, o Sport Club Germânia e o Clube Atlético Paulistano, que juntos fundaram, em 1901, a Liga Paulista de Futebol. Os jogos eram disputados no Velódromo Paulistano, local concluído para a prática de ciclismo, mas que foi rapidamente convertido em um "estádio" no mesmo ano que a LPF começou. Vale ressaltar que, na criação da liga, a visão de seus fundadores era de um modelo amador, em que os praticantes estavam lá para a diversão própria, "aristocrática" ou "burguesa", não concebendo e, posteriormente, rejeitando o futebol como um trabalho, ou seja, uma instituição profissional. Isso demonstra como o esporte estava intimamente ligado com as classes altas e como elas queriam, em primeiro momento, que ficasse restrito a elas. Entretanto, o baixo custo de entrada, a acessibilidade e a facilidade para jogar futebol fez com que o esporte saísse de seu núcleo original, a elite paulistana, e fosse para os bairros operários da capital. Foi nesse contexto que dois dos maiores clubes brasileiros se formaram, o Sport Club Corinthians Paulista e a Società Sportiva Palestra Itália, fundados em 1910 e 1914 respectivamente. A fundação dos dois clubes e de outras associações operárias menores não "passou batido", já que, em 1913, as discussões sobre a inclusão de novas equipes mais populares levou à cisão do campeonato. O Paulistano, extremamente incomodado pela expansão da liga, resolveu exigir um valor muito alto para o aluguel do Velódromo, fato que impossibilitava equipes menos abastadas, como o SCCP, de participarem. Assim, o Germânia se ofereceu a ceder seu estádio, o Parque Antártica, à LPF por um valor 4 vezes menor do que o imposto pelo Paulistano referente ao Velódromo.

Aceito o acordo, o Paulistano se recusou a jogar no Parque Antártica, criando sua própria "liga", a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA). O campeonato de 1913 fora dividido em 2: o da APEA, que contava com Mackenzie College, Associação Atlética das Palmeiras e Paulistano; e o da FPF, que contava com Americano, Germânia, Sport Club Internacional, Clube Atlético Ypiranga, Corinthians e o Santos Football-Club. A edição de 1913 marcou um ponto de inflexão importante na história do futebol paulista, pois pela primeira vez um clube dissociado da elite, o Corinthians, participou e, além disso, fora a primeira vez que uma equipe de fora da capital, o Santos Football Club, disputou o torneio (embora ele tenha desistido da competição devido aos altos custos de viagem).

Após a ruptura, a APEA se viu em uma situação complicada, pois os altos custos restringiam a expansão e consolidação do campeonato. Desse modo, a Associação se viu obrigada a diminuir as altas taxas e foi para a "ativa", de modo a convidar outras equipes a participarem da competição. Assim, na edição de 1914, o número de competidores saiu de 3 para 6, com clubes como o Ypiranga "virando a casaca" e a fundação de São Bento, que se consagraria o campeão, e do Scottish Wanderers, pela comunidade escocesa da cidade de São Paulo. Foi no campeonato de 1914 que surgiu o que seria a maior estrela da era amadora, Arthur Friedenreich, artilheiro do campeonato, revelado pelo Ypiranga. Nos anos que se seguiram, se viu o esvaziamento da FPF e a expansão da APEA, que realmente se consolidou como uma força formidável (possuía até uma "2ª divisão"), de modo que em 1917 a FPF foi dissolvida e seus clubes integrantes se filiaram à APEA, reiniciando o Campeonato Paulista unificado.

Análise de contexto: Campeonato Paulista de 1917

O Campeonato Paulista de 1917 realizado pela APEA foi outro ponto de inflexão importante, pois acabou com a divisão presente no futebol do estado e, ao englobar os times mais populares, formulou de forma definitiva as bases e as fundações do esporte no Estado. Assim, é interessante analisar a composição do campeonato de modo a entender o contexto que moldava a identificação e o espírito das "torcidas" primitivas:

Paulistano: clube da elite, principal defensor do amadorismo, equipe forte, prestigiada e bem treinada, campeã da edição de 1917; posteriormente iria sucumbir diante das pressões advindas da popularização do esporte.

Palestra Itália: clube de trabalhadores, em sua grande maioria italianos, representava os anseios de uma parte marginalizada da sociedade paulistana em meio a uma era de mudanças (indústria, urbanização, nacionalismos). Possuía uma torcida/comunidade integrada e participativa, iria se popularizar muito e atingir grande sucesso no futebol paulista e nacional.

Corinthians: clube pioneiro, formado no Bom Retiro por operários da região, enfrentou os preconceitos da época e fez história. Foi vitorioso cedo, embora com dificuldades devido aos empecilhos colocados por outras equipes; era bem popular e, com as futuras glórias, sua frase fundadora "time do povo, para o povo" serviria cada vez mais como base fundamental para a instituição.

Santos: inicialmente um clube local, atingiu grande prestígio em sua cidade natal e aproveitou a oportunidade para entrar nos mais famosos campos estaduais. Era fortemente ligado à comunidade de sua cidade e, no futuro, se tornaria um dos mais lendários clubes brasileiros, com torcedores espalhados por todo o país.

A.A. Palmeiras: clube que, embora não tenha sido fundador do Campeonato Paulista, foi extremamente presente na era amadora. Foi essencial para a continuidade do campeonato, pois, além dos títulos conquistados, inaugurou um importante estádio no Bom Retiro após a demolição do Velódromo em 1915.

Ypiranga e São Bento: o Ypiranga foi uma equipe recorrente nos campeonatos da era amadora e, apesar de não ter sido campeã, foi importante no desenvolvimento do futebol por revelar Arthur Friedenreich, o primeiro grande "craque" brasileiro. Era extremamente forte localmente, na região do bairro Ipiranga. Já o São Bento foi uma equipe criada pelo Padre Kelton, docente do prestigiado Gymnasio São Bento, instituição que se confundiria com a história desse clube, relativamente bem-sucedido antes da profissionalização "eliminá-lo".

Internacional e Mackenzie: fundado pelo comerciante alemão Hans Nobiling, o Internacional foi a primeira equipe a abrir o esporte para brasileiros e outros nacionais, afinal os antigos clubes, SPAC e Mackenzie, só aceitavam ingleses. O Internacional, apesar de ter sido pioneiro neste aspecto, nunca foi realmente popular. Em paralelo, o Mackenzie foi fundado por um professor da instituição presbiteriana homônima e ligado aos alunos desta. Nunca foi também um clube popular, mas, com o avanço do profissionalismo, se desfez e cedeu sua infraestrutura para a Portuguesa, time que se tornaria um dos mais tradicionais da capital paulista.

A popularização e profissionalização do futebol (anos 20 e 30)

A situação do futebol brasileiro e, principalmente, paulistano ia começar a ter grandes mudanças nos anos 20 e 30, pois o esporte, ao se transformar em um interesse de massa, começou a se profissionalizar, a abandonar o amadorismo e o seu forte caráter elitista. Os estádios, com suas icônicas gerais — que começaram primeiramente no Velódromo, mas que ganharam proeminência no Parque Antártica —, começaram a atrair verdadeiras multidões e a se tornarem locais de socialização, catarse e festa, atravessando barreiras culturais e socioeconômicas, largando o espírito antigo de contenção e contemplação não-crítica. Foi nessas décadas que os times "populares" prevaleceram e aqueles que resistiram às mudanças e à abertura do cenário começaram lentamente a desaparecer.

O Palestra Itália e o Corinthians iam dominar a década de 1920, com 3 títulos paulistas para o clube do Brás e 6 para o do Bom Retiro em um espaço de dez anos (1920–1930). Também surgiria o "profissionalismo marrom", um modelo que tentava burlar o amadorismo com compensações pontuais — bichos — aos jogadores, adotado principalmente pelos clubes de maior torcida. Nesse ponto começam as disputas entre Paulistano, que cada vez mais se isolaria, contra Palestra, Corinthians, Santos e outros, que agora, cada vez mais populares, sofriam pressões por equipes melhores e, portanto, necessitavam de atletas profissionais.

Ao mesmo tempo, o futebol florescia no estado do Rio de Janeiro, a até então capital nacional. Os tradicionais clubes de regatas, que atraíam divertimento e atletismo para as elites litorâneas, iam aos poucos mudando, entrando em mutação para se tornarem clubes de football. O esporte inglês se espalhava pelos centros urbanos e, agora, na maior cidade do país. Os dois maiores exemplos dessa transformação foram o Clube de Regatas do Flamengo e o Clube de Regatas Vasco da Gama: o primeiro formado por rapazes do tradicional bairro do Flamengo que, ao observarem o prestígio que angariavam remadores como os do Botafogo, resolveram criar sua própria agremiação; o segundo foi formado mais ou menos na mesma toada, contudo teve sua própria especialidade, afinal fora fundado por membros da comunidade luso-brasileira. Ambos iriam adotar o futebol como esporte, principalmente com a força do Fluminense F.C. (que inclusive foi diretamente responsável pelo departamento de futebol do CRF), do Botafogo F.C. (que posteriormente se fundiu com o Clube de Regatas do Botafogo), do Bangu Atlético Clube e do finado Paysandu (que ainda existe como clube social).

Um fato interessante sobre o futebol carioca é o próprio Bangu Atlético, instituído em 1903 e um dos fundadores do campeonato em 1906. Diferentemente dos outros participantes, o Bangu já começou como um clube "popular", sendo fundado por operários da Fábrica de Tecidos Bangu e tendo um elenco diverso, algo que inclusive incomodava os jogadores das outras equipes, como Botafogo e Fluminense. É nesse conflito entre elites e povo que, décadas depois, acontece um dos episódios mais emblemáticos da era do "profissionalismo marrom", que marcaria até hoje a narrativa do futebol brasileiro: "os camisas negras" e a "resposta histórica" do Vasco da Gama.

Time marcado por homens mulatos, negros e brancos, pobres, muitos deles analfabetos, moradores dos subúrbios do Rio de Janeiro, o Vasco da Gama ascendeu das divisões menores da capital até a primeira divisão da LMDT (Liga Metropolitana de Desportos Terrestres), organizadora do campeonato de futebol do então Distrito Federal. Na sua primeira participação na elite, em 1923, o Vasco da Gama surpreendeu seus já muito bem consolidados adversários, conquistando o título contra o Flamengo e marcando um divisor de águas na história do futebol local e nacional. A vitória aguerrida, conquistada pelas mãos de um time diverso e proletário no até então grande palco dos "maneirismos ingleses", o Estádio das Laranjeiras, levou o time às graças do povo, ao mesmo tempo que irritou os dirigentes dos clubes "maiores". No ano seguinte, por conta de disputas internas, a AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Athleticos) foi fundada pelos principais times do período e convidou o Vasco, atual campeão, para participar da próxima edição. Contudo, diversas restrições foram feitas e a rigidez com respeito ao amadorismo foi aumentada, uma clara conspiração das outras equipes, as quais se sentiam ameaçadas por mais um possível título vascaíno. As exigências novas iriam resultar na exclusão de 12 atletas da equipe cruzmaltina. Assim, no dia 7 de abril de 1924, o presidente da instituição, José Augusto Prestes, mandou um ofício ao presidente da AMEA, anunciando sua decisão de abrir mão da inscrição do campeonato diante de tamanha injustiça, se colocando ao lado dos atletas contra os desmandos da elite. Tal ofício seria imortalizado sob o nome de Resposta Histórica.

O Vasco entraria para a AMEA em 1925 e, nesse contexto, o profissionalismo se tornava uma realidade cada vez mais inevitável, tanto na capital, quanto na industrial cidade de São Paulo, quanto em outros importantes centros do Brasil. Equipes que tinham protagonizado a década de 10 nos campeonatos de Rio de Janeiro e São Paulo começaram a cair nas tabelas, a ter problemas financeiros para manterem um time competitivo, além de verem pouco engajamento se comparados aos clubes mais populares. Assim, ficaria clara a conclusão já ao final da década: ou os times se profissionalizavam e mantinham um campeonato competitivo, ou se manteriam de forma elitista, defendendo o amadorismo e definhando nos grandes campeonatos, até a desistência final. Alguns clubes ligados às altas classes acabaram por adotar o primeiro caminho, se fortalecendo e se eternizando (exemplos de Atlético-MG e Fluminense); contudo, a maioria optou por não se profissionalizar, dando espaço a novas, pequenas, porém fortes equipes. Tiveram inclusive entidades que entraram em conflito interno sobre qual caminho seguir, gerando cisões internas, como no emblemático caso em que, após uma revolta pró-profissionalismo do departamento de futebol, foi criado o lendário São Paulo Futebol Clube; terminou assim de vez o maior símbolo do amadorismo e da primeira fase do futebol nacional, o Clube Atlético Paulistano.

Futebol, a paixão nacional (décadas de 50 a 70)

Durante a década de 1930 surgiram tentativas de unir as equipes dos diversos entes federativos, as quais ainda se encontravam sob certas "barreiras" estaduais. Efêmeras foram as iniciativas: como um protótipo de campeonato entre as equipes mais fortes do Rio de Janeiro e de São Paulo, ocorrido em 1933, e, de forma mais ambiciosa, uma tentativa de realizar um "campeonato brasileiro" em 1937, que acabou em frustração e descontinuidade, ao pisar em uma realidade ainda cinzenta entre profissionalismo e amadorismo.

Anos de maturidade foram necessários para que em 1950 o torneio Rio-São Paulo se tornasse uma realidade rotineira e de suma importância para as principais equipes nacionais. O torneio daria o gás necessário para que o futebol começasse a se nacionalizar e, mesmo com o trauma do "Maracanazo", a Copa de 1950 ajudou a consolidar logística e infraestrutura essenciais para que começassem planos para torneios interestaduais não amistosos, além de fortalecer o papel da CBD como entidade organizadora. Nos anos seguintes, sob o grande palco da competição, equipes como Corinthians, Botafogo, Palmeiras e Portuguesa atingiram grande prestígio em meio à era do rádio. Equipes de "fora do eixo", como Cruzeiro, Atlético-MG, Bahia, Náutico, Internacional e Grêmio, desejavam cada vez mais a possibilidade de derrotar os campeões do Rio-São Paulo, "inflamando a torcida" e representando os seus respectivos estados ao obter a alcunha de campeão nacional.

Assim, no ano de 1959, em meio à efervescência desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek e à ambição de unir e modernizar o país, é realizada a primeira edição da Taça Brasil. A competição estava sendo discutida desde 1954, com seu regulamento aprovado em 1955; contudo, não foi concretizada anteriormente pelo fato de o triênio (1955–1959) já ter sido definido previamente pela CBD com foco na Copa do Mundo. Nesse sentido, o campeonato ficou marcado por ser realizado um ano depois de um marco historicamente decisivo, a conquista do primeiro título mundial pelo Brasil na Suécia. O primeiro título foi conquistado pela equipe do Bahia, uma relativa surpresa, pois o time de fora do eixo ganhou do Santos, um time fortíssimo, decisivo para a equipe campeã mundial e que contava com a maior promessa (e futuro maior jogador) do futebol brasileiro, Pelé. Vale lembrar que, pelas limitações logísticas do período e das proporções continentais do país, o campeonato contou com participantes que jogaram uma quantidade significativamente menor de jogos do que outros (o Bahia, por exemplo, disputou 14 partidas; o Santos disputou "só" 5).

A Taça Brasil se tornaria um sucesso popular, ainda mais com o bicampeonato em 1962 e a consolidação de Pelé, Garrincha, Carlos Alberto e os campeões como ídolos e heróis nacionais. O nacionalismo, muito presente na 4ª república, se misturaria com o desenvolvimento tecnológico e industrial dos meios de comunicação de massa, espalhando o esporte para as mais diferentes camadas e segmentos da sociedade. O futebol, que já era o principal esporte do país, se cristalizou em meio à identidade do que era ser brasileiro. O Santos, mega vitorioso, derrotou os argentinos e uruguaios na Copa Libertadores e partiu em ambiciosas excursões europeias, onde triunfou sobre as principais equipes e se consagrou campeão mundial; o Palmeiras revelou jogadores lendários, lotou estádios e expandiu sua Academia para muito além das fronteiras do Brás; o antigo Palestra Itália de Minas Gerais, agora com o nome de Cruzeiro, saiu vitorioso sobre o até então imbatível Santos, trouxe a taça para o que se tornaria o "templo" do futebol mineiro, o recém-inaugurado Mineirão, e adotou uma gestão esportiva pioneira e bem-sucedida, se "espalhando" exponencialmente pelo interior de Minas Gerais de uma forma tão marcante que sua torcida ganharia o icônico apelido de "China Azul". Contudo, apesar de a Taça Brasil ter solidificado muitas das equipes do atual G-12, a parte administrativa fora um completo caos, resultando na criação do Torneio Roberto Gomes Pedrosa em 1967 (fato pelo qual o Palmeiras foi considerado campeão brasileiro duas vezes no mesmo ano). O folclórico Botafogo de 1968, por exemplo, ganhou o campeonato apelidado de "Robertão", enquanto o Santos foi campeão brasileiro pela Taça de Prata (sucessora da Taça Brasil) no mesmo ano.

Sendo assim, após a seleção mágica de 1970 e o triunfo heroico no México, era necessário regulamentar melhor a situação. A revista Placar também fez intensa campanha para a mudança regulamentar e a criação do chamado Campeonato Nacional. Nesse sentido, o governo militar, aliando esses anseios e a necessidade de usar o esporte como "pão e circo" para os abusos autoritários da ditadura, criou, em 1971, uma edição que seria por muito tempo reconhecida como o primeiro campeonato nacional oficial, conquistado pelo Atlético-MG de Telê Santana e o "passo inicial" para a era moderna do futebol brasileiro. As disputas intensas continuaram e, em certos momentos, como em 1987, geraram interpretações diferentes sobre quem foi o campeão; contudo, é inegável que o campeonato de 1971 foi um divisor de águas para a regularização do esporte.

Nesse tempo, com a euforia de uma realidade nos campeonatos nacionais e a conquista da Copa de 1970, os jogadores estavam se tornando verdadeiras estrelas populares. No entanto, é importante destacar o "populares" como adjetivo, afinal o estilo de vida destes atletas era radicalmente diferente dos "superstars" e multimilionários que jogam, hoje, nas principais equipes da Série A. Estavam longe de serem só "mais um", ou de terem que aceitar qualquer trabalho, como na época do amadorismo; contudo, esses ainda eram, em grande maioria, ícones da comunidade, protagonistas locais, com intenso contato com a população. Eles podiam comprar casas, ajudar a família e ter uma vida confortável e, em casos de maior prestígio, viverem certos luxos; no entanto, esse contexto nem se compara ao de grandes atletas dos dias de hoje, que, em meio à realidade das redes sociais e do enriquecimento exponencial do esporte, ganham salários equivalentes aos de grandes executivos nas maiores corporações do Brasil. A "marra" deixou de ser desafiar abertamente o oponente e virou sinônimo, muitas das vezes, de ignorar seus próprios fãs.

O esporte que nasceu entre "gentlemans" e suas finas regras acabou por sucumbir aos anseios de uma maioria incomensurável. No entanto, esse mesmo futebol que havia se expandido e se tornado parte integral da identidade brasileira passou a se reorganizar sob um novo elitismo, cada vez mais distante da realidade cotidiana. Aquilo que outrora foi "do povo, para o povo" hoje se apresenta em um cenário que relembra sua infância nacional, só que agora muito mais comercial, midiático e competitivo.

Estilos de vida incompatíveis: o torcedor e o jogador

Carros do ano, últimos lançamentos das marcas, mansões e festas exclusivas fazem parte da imagem de muitos jogadores profissionais que, na atualidade, estão mais próximos de celebridades da mídia do que de representantes do esporte que um dia foi um ambiente de pertencimento. A classe trabalhadora, que é a grande massa consumidora do futebol, está distante dessa vivência de luxo e perde um pouco da identificação que deveria estar presente na função social do esporte. Jogadores famosos que estão no topo da pirâmide financeira mundial, com seus salários altos, são protagonistas de escândalos públicos e não estão nem perto da realidade do consumidor médio de futebol, mostrando que o esporte que um dia se consolidou como forma de unir numa só identidade o povo brasileiro já não se mostra tão próximo dos seus entusiastas.

Mas essa diferença de padrões de vida não existe há muito tempo? Em partes. O estilo de vida luxuoso dos jogadores não é recente e talvez seja mais antigo do que imaginamos, mas, com a quantidade de meios midiáticos que transmitem informação na contemporaneidade, a maioria dessas ações não passa despercebida. Partindo do princípio de que as redes sociais possuem um papel importante na sociedade atual e de que, com um telefone celular, todos nós somos micro-meios de comunicação ambulantes, o contato com o estilo de vida incompatível dos jogadores de futebol profissional se torna uma das principais partes da imagem pública dos atletas.

A discussão não é se os salários dos jogadores profissionais são ou não justos, nem se deve existir um padrão de vida menos extravagante. O que se discute aqui é o quanto esse estilo de vida está distante e promove uma separação cada vez maior do jogador com o torcedor. Jogadores flagrados em festas da elite ou ostentando novos carros enquanto seus respectivos times passam por fases complicadas dão a sensação de desinteresse, como se entrar em campo e ter um contrato assinado fossem as únicas coisas que compõem um jogador profissional. Esse tipo de comportamento fere a tradição e mostra que, muitas vezes, o time que para muitos torcedores é uma das partes mais importantes da vida pode estar sendo usado de alavanca para crescimento financeiro e visibilidade individual, para posteriormente chamar a atenção de um degrau novo na carreira, muitas vezes nos salários milionários e na atenção midiática do futebol europeu.

Tudo isso cria a imagem de um esporte que funciona apenas por meio das lógicas de mercado, que não dá mais o devido valor à paixão pelo clube nem ao fervor da torcida, resumida a meramente um grupo de consumidores do produto futebol. Jogadores que parecem não possuir nenhuma relação afetiva com o clube, e sim com a alta remuneração, mostram que a elitização do futebol também está dentro dos próprios elencos, diretorias etc., tudo resultando num mesmo retrocesso: a transformação do futebol em um esporte para o consumo da elite e programado para ser jogado também por futuros membros dela.

Ex-porte do povo: do esporte popular ao espetáculo

O futebol, que em determinado momento foi apropriado pelas classes populares e se consolidou como um "esporte do povo", passou, nas últimas décadas, por transformações significativas que o distanciaram dessa condição. Houve avanços tecnológicos, como a televisão por satélite e a internet, transformando o que era um encontro local entre uma comunidade em um produto midiático de alcance global. Hoje, campeonatos são vendidos em pacotes comerciais, clubes se posicionam como grandes marcas e o torcedor passou a ser visto, antes de tudo, como consumidor. Essa lógica de mercado remodelou e mercantilizou o futebol brasileiro, estabelecendo um contraste nítido entre o futebol de várzea — visto atualmente como um remanescente daquela expressão social de pertencimento — e o espetáculo completo, em que cada partida possui o objetivo de gerar bilheteria, patrocínios e receitas diversas. Observa-se, assim, uma gradual elitização do futebol, processo que encarece a prática de torcer nos estádios e restringe o acesso das camadas populares, transformando a experiência em privilégio de quem pode arcar com os altos custos.

Clubes de futebol como marcas de luxo

Pagando mais caro para viver o esporte

Com a visibilidade conquistada pelo futebol, o valor dos patrocínios atingiu patamares cada vez maiores. Camisas estampadas com marcas de grandes empresas representam uma de suas principais fontes de receita, mas não se limitam a isso: estádios hoje operam saturados de possibilidades de lucro, que vão desde cadeiras premium e naming rights até camarotes luxuosos. Esses espaços VIP oferecem entretenimento diferenciado, como música ao vivo e buffet gourmet, criando experiências "premium" para quem pode pagar.

Na ponta do consumo, quem deseja viver o futebol plenamente assume custos exorbitantes. Uma camisa oficial chega a custar mais de R$ 300 nos canais oficiais: não raro, entre R$ 209 e R$ 370, com a média girando em torno de R$ 301 para os vinte clubes da Série A. Além disso, planos de sócio-torcedor chegam a R$ 320 mensais no patamar Diamante de alguns clubes, como o Santos Futebol Clube, garantindo aos "associados" vantagens como compra antecipada de ingressos e acesso a conteúdos exclusivos. Nesse contexto, torcedores de baixa renda são condenados a recorrer a produtos falsificados ou a abrir mão de ir ao estádio.

Ademais, o show do intervalo, popularizado principalmente pelo Super Bowl, passou a ser entendido como elemento essencial para transformar uma partida em espetáculo completo. No futebol brasileiro, isso se traduziu na incorporação de apresentações musicais, performances artísticas e efeitos visuais durante o intervalo, além de outras ações de entretenimento. Esse acréscimo de atrações reforça a ideia de que ir ao estádio deixou de ser apenas assistir a 90 minutos de jogo: tornou-se uma experiência de lazer e consumo, em que o torcedor busca não somente o resultado esportivo, mas também momentos de entretenimento, convivência social e sensação de exclusividade.

Camisas virando moda

Externamente, observamos fenômenos como a parceria entre Paris Saint-Germain e a Jordan, que transformou o PSG em ícone do streetwear, aparecendo inclusive na Paris Fashion Week. No Brasil, a diversificação de produtos se expande: hoje não existem apenas itens para uso em campo, mas também blusas, bonés e coleções que permitem ao torcedor inserir símbolos do clube no cotidiano. Para alguns, a camisa deixou de representar apenas identidade e tornou-se artigo de ostentação ou de coleção. Marcas de luxo internacionais reforçam essa tendência: a Giorgio Armani já criou a linha esportiva EA7 e, desde 2015, produz uniformes de alto padrão para clubes como o Bayern de Munique; na temporada 2021/22, abasteceu o Napoli com uniformes — pela primeira vez, a grife forneceu material esportivo para a prática profissional.

À medida que as camisas passam a ser vistas como peças de moda ou objetos de coleção, a motivação de compra desloca-se da identificação com o clube para o desejo de exclusividade e status. Esse processo reduz a conexão emocional genuína: a "torcida" deixa de ser um sentimento compartilhado na arquibancada e se fragmenta em públicos distintos — os que compram para apoiar e os que compram para exibir. Em resumo, a mercantilização e o encarecimento das camisas, ao torná-las símbolos de moda e colecionismo, criam uma barreira que afasta parte dos torcedores de sua relação afetiva original com o clube.

Motivos para os preços altos no Brasil

No Brasil, a tributação estadual pode chegar a cerca de 35% do valor final de cada peça, elevando substancialmente o custo ao consumidor. Além disso, despesas com logística, produção e medidas de combate à pirataria (como autenticação e selos de segurança) encarecem ainda mais o preço das camisas oficiais. As fornecedoras, por sua vez, passaram a tratar determinados modelos como itens de coleção, o que estimula a compra mesmo diante de valores elevados. Vale notar, ainda, que os preços elevados na Europa indicam que, mesmo em mercados de maior poder aquisitivo e com ampla oferta, a demanda por camisas oficiais permanece alta.

Streaming e acesso restrito às transmissões

O acesso ao futebol ao vivo, seja no estádio ou pela TV, hoje está condicionado ao alto poder aquisitivo. Para acompanhar um clube em todas as competições, o torcedor precisa assinar diversos serviços — Globo, ESPN/Fox, TNT/Space, SporTV, Premiere, Conmebol TV, HBO Max, Disney+, DAZN, Amazon Prime Video e Paramount+. Ao fragmentar o acesso, restringe-se o direito ao entretenimento e reforça-se o crescimento da pirataria esportiva. Quem não dispõe de recursos para abraçar tantas assinaturas ou não domina a tecnologia digital simplesmente fica de fora, ampliando a exclusão e a distância entre as camadas sociais em relação ao futebol. Essas "telas inclinadas", além de violarem direitos autorais, frequentemente veiculam golpes — pedem doações para manter as transmissões e anunciam sorteios no PIX que nunca ocorrem.

Caso São Januário

Contexto

Após o empate sem gols na partida entre Vasco e Goiás pelo Campeonato Brasileiro de 2023, torcedores vascaínos atiraram objetos no gramado e um confronto entre esses torcedores e a polícia foi gerado. Por conta disso, a equipe vascaína foi condenada, inicialmente, a fechar o estádio por 30 dias; porém, após o Ministério Público receber o relatório do juiz Marcello Rubioli, que estava de plantão no local do jogo, a punição foi alterada e o estádio só abriria novamente quando medidas de segurança fossem cumpridas pela equipe. Isso resultou em 90 dias sem receber público em São Januário.

Relatório do juiz Marcello Rubioli

"Para contextualizar a total falta de condições de operação do local, partindo da área externa à interna, vê-se que todo o complexo é cercado pela comunidade da Barreira do Vasco, de onde houve comumente estampidos de disparos de armas de fogo oriundos do tráfico de drogas lá instalado, o que gera clima de insegurança para chegar e sair do estádio. São ruas estreitas, sem área de escape, que sempre ficam lotadas de torcedores se embriagando antes de entrar no estádio."

A polêmica

A polêmica do caso entra nas justificativas utilizadas para o julgamento, evidenciando a disparidade de tratamento apontada pela própria equipe do Vasco da Gama como seletiva e discriminatória. Ao analisar a fala do juiz, é possível perceber o viés preconceituoso e discriminatório que ele estabelece, principalmente quando generaliza a comunidade da Barreira do Vasco à violência e ao tráfico de drogas. Esse aspecto foi denunciado pelo próprio Vasco da Gama e pela Associação de Moradores da Barreira do Vasco.

Depoimento e carta

Vania Rodrigues, presidente da Associação de Moradores da Barreira do Vasco, destacou:

"Moro aqui desde que nasci e o que eu posso falar da minha favela é que é uma favela de paz. Eu faço um apelo para não colocarem um rótulo de uma favela perigosa, que oferece perigo ao ponto de proibir jogos no estádio, até porque a Barreira do Vasco está junto com São Januário, uma é o elo da outra e assim vamos caminhar juntos. Impactou a todos. Famílias estão sofrendo. Estamos sendo punidos por uma coisa que nós não somos."

Destaca-se nessa carta o repúdio da comunidade às manifestações elitistas e discriminatórias que associam a Barreira à violência. Os moradores reafirmam a pacificidade do local, a convivência histórica com o estádio e, sobretudo, a importância do São Januário como parte constitutiva de sua identidade. Tal vínculo remete ao papel do futebol de várzea, que sempre funcionou como espaço de sociabilidade, pertencimento e resistência cultural. Assim, o estádio transcende a função de arena esportiva e se consolida como símbolo da memória coletiva.

Comparação: Santos e Atlético-MG

Em 21 de junho, véspera de Vasco x Goiás, o Santos perdeu para o Corinthians por 2 a 0, na Vila Belmiro, em partida interrompida depois de a torcida santista atirar fogos no gramado. O Santos foi punido, primeiramente, por oito jogos sem torcida, porém a pena foi reduzida para três jogos e o clube voltou a receber torcedores após, aproximadamente, 30 dias. A situação é muito semelhante à de São Januário — violência de torcedores em um estádio popular e de menor estrutura —, mas os julgamentos foram totalmente diferentes: o Santos foi punido apenas pelos acontecimentos de sua torcida e ainda teve a pena reduzida, enquanto o Vasco teve a punição prolongada devido a fatores externos, vistos de forma distorcida, e à estrutura do estádio. De forma parecida, no jogo entre Atlético-MG e Flamengo pela final da Copa do Brasil de 2024, na Arena MRV, o Atlético foi denunciado por arremesso de bombas, invasão de torcedores e uso de lasers no goleiro adversário, e recebeu punição de apenas três jogos.

Portanto, nota-se a crescente elitização do futebol brasileiro, evidenciada pela disparidade no tratamento dado a estádios como São Januário, Vila Belmiro e Arena MRV. Enquanto o clube carioca sofreu punições mais severas, associadas de forma preconceituosa à comunidade da Barreira do Vasco, outras equipes tiveram sanções mais brandas em situações semelhantes. Essa assimetria revela como a localização e o perfil social do entorno dos estádios influenciam nas decisões, reforçando a exclusão de determinadas parcelas da torcida.

Variação do preço dos ingressos no país

Conhecido por ser o "país do futebol", o Brasil tem apresentado uma frequência cada vez maior de limitações no acesso aos estádios — e os preços têm papel fundamental nessa restrição. É possível observar como o preço dos ingressos disparou nos últimos tempos, de forma que jogos importantes, como finais, possuem uma cobrança muito superior se comparada a grandes jogos do passado. Um dos motivos é a mudança do que o ato de ir a um estádio representa: tratava-se, antigamente, de um momento para expressar torcida e apoio; hoje, os clubes e estádios, percebendo o poder dessa ida dentro do mundo dos negócios, transformam esse apoio em uma forma de entretenimento e em um verdadeiro espetáculo — que pode ser, e de fato é, cobrado.

Além dessa visão exibicionista do esporte, outro ponto de destaque é o impacto provocado pela Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Diversos estádios nacionais foram reformados para atender à demanda; apesar de belos, esses novos estádios precisavam de receita suficiente para cobrir os custos de uma reforma daquela proporção. O resultado foi um aumento de 119% no preço dos ingressos em novas arenas, quando comparado ao de arenas antigas — é o que aponta a reportagem de Ciro Barros e Giulia Afiune para a revista Pública. Essas reformas e mudanças puseram o preço dos ingressos em um nível que afastou (e ainda afasta) os torcedores mais tradicionais e fanáticos, aqueles que realmente estão lá pela sua equipe, e não pelo entretenimento que assistir a um jogo proporciona.

A relação do sócio-torcedor com o encarecimento

Já não é de hoje que falamos do aumento grave nos preços de ingressos; porém, um novo fator pode ser a chave para entender os aumentos cada vez mais agressivos no mercado: o programa de sócio-torcedor. Tudo indica que a distribuição do plano teve como objetivo garantir aos clubes uma renda mensal e previsível ao custo de oferecer descontos em ingressos e sistemas de pontos para fidelizar seus clientes. Mas e aqueles que não conseguem garantir o valor mensal devido à insegurança financeira, que se contentam com vindas eventuais ao estádio? Com o reforço no aumento de preço dos ingressos, uma tática conhecida na economia vem à mente: a chamada Tarifa em Duas Etapas.

Ao considerarmos o mandante do jogo como detentor do monopólio do evento, entende-se que essa pode ser uma das estratégias adotadas para precificar os ingressos. A tarifa em duas etapas consiste em, ao identificar os diferentes perfis de consumidores, estipular um preço fracionado em duas partes: a parte fixa, que visa englobar o "excedente" que os torcedores estariam dispostos a pagar — que, nesse caso, é o valor do próprio sócio-torcedor — e uma parte variável, medida pelo quanto aquele serviço é consumido, que seria o ingresso vendido no dia do jogo. O problema é que, ao dividir os diferentes tipos de clientes e seus preços de reserva, a população com menor renda tende a sofrer mais com os preços altos, e os estádios passam a atender melhor um perfil diferente do torcedor considerado "raiz".

Futebol de várzea e outras manifestações populares

De acordo com Santos (2018), o futebol de várzea é o futebol praticado em campos que não têm a devida estrutura dos jogos oficiais e por jogadores não-profissionais, jogado sem se ater a regras muito rígidas e de forma amadora. O termo "várzea" é uma gíria que designa algo informal, sem muita estrutura e apoio. Entretanto, o que falta de estrutura, investimento e visibilidade, sobra de paixão e democratização do esporte. A modalidade amadora é responsável por revelar talentos, ensinar as primeiras técnicas, fundar o senso de coletividade e criar pertencimento. Nas periferias e nos campinhos, reúne as torcidas mais populares e íntimas que se pode imaginar: família, amigos, torcedores locais e vizinhos, representantes do futebol afetivo, de integração e coletividade. O futebol de várzea não se rende ao espetáculo financeiro, tendo potencial de afastar jovens periféricos do crime e oferecer uma atividade que é, sobretudo, cultural. É uma resposta do público consumidor de futebol à elitização que assola o esporte profissional.

Também como uma maneira de retornar o futebol à sua função social de pertencimento, a CUFA (Central Única das Favelas) criou em 2012 a Taça das Favelas, um torneio que reúne jovens de comunidades de todo o Brasil. Além dos jogos, a Taça tem ações de integração social, oferecendo workshops sobre educação financeira e alimentação para técnicos e jogadores. O torneio também revela talentos, como Patrick de Paula, volante revelado jogando pelo Complexo Santa Margarida, que se profissionalizou no Palmeiras, sendo campeão da Copa do Brasil (2020) e de duas Libertadores (2020 e 2021). Esse tipo de iniciativa mostra que ainda pode existir um futebol que não exista em função do dinheiro, mantendo sua função social de pertencimento, que inclui e muda realidades.

Conclusão

Quando, em 1894, Charles Miller e seus colegas disputavam um match de football, nenhum deles poderia imaginar o que um dia esse esporte se tornaria na maior nação sul-americana. O Brasil se tornaria, acima da Inglaterra, inventora do esporte, o maior campeão mundial, ganhando a alcunha de "país do futebol". Os clubes, que começaram como associações de divertimento recreativo para os "notáveis", se tornaram verdadeiras instituições dentro da realidade brasileira, reunindo brasileiros de todas as classes, raças e ideologias dentro de suas torcidas.

Mas o futebol, assim como quase todas as histórias, possui seus próprios trade-offs. A profissionalização abriu portas para dezenas de milhares de jovens, a massificação midiática gerou torcidas apaixonadas, as altas receitas puderam elevar a infraestrutura e permitir mega-eventos como a Copa do Mundo. Mas, ao mesmo tempo, os ídolos, com salários cada vez mais altos, se isolam de suas torcidas; acompanhar o "clube do coração" se tornou um alto dispêndio em meio aos incontáveis serviços de assinatura; os estádios se tornam cada vez mais "experiências" de luxo. Até mesmo vestir uma simples camisa se tornou um gasto considerável para a maior parte da população. A crescente discriminação entre os torcedores, o fim das "gerais", a interdição de São Januário, a falta de isonomia, as festas, os carros caros e as roupas de grife — tudo isso contribui para o fenômeno da "elitização" do futebol.

Holdings como o Grupo City e o modelo de SAFs trazem novas perspectivas de valor para um esporte que, janela após janela de transferências, quebra recordes. Se, por um lado, todo torcedor quer ver seu time cada vez mais dominante financeiramente, o quanto essa maior comercialização não limita o próprio torcedor e sua identificação com o clube? Foi a popularização, e não a realidade elitizada do início, que permitiu que o futebol se tornasse parte essencial da identidade de tantos estados e do país. Portanto, gerenciar a fina balança entre a necessidade de ser cada vez mais competitivo em um esporte cada vez mais valioso e estar presente para quem realmente ama o clube — os torcedores — é, além de muitas vezes uma questão de ética e solidariedade humana, gerenciar uma das mais importantes facetas culturais do Brasil.

Referências

GAMBETA, W. R. A bola rolou: o velódromo paulista e os espetáculos de futebol (1895/1916).

ATIQUE, Fernando et al. Uma relação concreta: a prática do futebol em São Paulo e os estádios do Parque Antarctica e do Pacaembu. Anais do Museu Paulista, v. 23, n. 1, jun. 2015, pp. 91–109.

SE PALMEIRAS. 1914–1920: fundação do Palestra Italia e primeiro título; e O verdadeiro nome do Palestra.

TERCEIRO TEMPO. Que fim levou? — Associação Atlética das Palmeiras; Associação Atlética São Bento; Clube Atlético Ypiranga.

SPORT CLUB CORINTHIANS PAULISTA. Clube — História; e VEJA SÃO PAULO, Corinthians: como tudo começou (2010).

MACKENZIE. Mackenzie: mais de 125 anos de história no futebol.

MUSEU DO FUTEBOL. Notícias (mar. 2020). GE, O que é Resposta Histórica? (abr. 2024).

UOL. O primeiro campeão do Brasil: a história do Bahia, vencedor da Taça Brasil de 1959.

Esta pesquisa foi produzida pelo núcleo de Pesquisa da FEA Sports Business e publicada originalmente no Medium da FEA SB.